5º Relatório de Transparência Salarial mostra que mulheres ocupam mais vagas no mercado formal, porém ainda recebem 21,3% a menos que os homens em empresas grandes.
O mercado de trabalho brasileiro registrou um avanço numérico relevante para as mulheres nos últimos dois anos, mas esse crescimento não veio acompanhado da redução esperada na desigualdade de remuneração. É o que aponta o 5º Relatório de Transparência Salarial e de Critérios Remuneratórios, divulgado pelo Ministério do Trabalho e Emprego em parceria com o Ministério das Mulheres. Segundo o levantamento, <cite index=”26-1″>a participação feminina cresceu 11% no mercado de trabalho, com ampliação das oportunidades para mulheres negras e pardas</cite>, mas a diferença de salário entre os gêneros praticamente não se moveu desde o primeiro relatório, divulgado em 2023. A dúvida que fica para quem acompanha o tema é direta: por que mais empregos não estão se traduzindo em salários mais próximos dos recebidos pelos homens?
O que o relatório revela sobre o avanço das mulheres no mercado
Os números de participação são, de fato, expressivos. O levantamento usa como base a Relação Anual de Informações Sociais e reúne dados de cerca de 53,5 mil estabelecimentos com 100 ou mais empregados em todo o país. Nesse universo, o número de mulheres ocupadas passou de 7,2 milhões para 8 milhões, um acréscimo de aproximadamente 800 mil postos de trabalho em pouco mais de dois anos. O avanço foi ainda mais acentuado entre mulheres negras e pardas, cuja presença no mercado formal cresceu 29%, saindo de 3,2 milhões para 4,2 milhões de trabalhadoras.
Esse movimento é atribuído, em parte, à Lei nº 14.611, sancionada em 2023, que obriga empresas com 100 ou mais empregados a divulgar relatórios semestrais de transparência salarial e adotar medidas concretas para reduzir a discriminação de gênero, incluindo canais de denúncia e programas de diversidade. A norma também prevê multa equivalente a dez vezes o valor do salário em casos de discriminação salarial comprovada por motivo de gênero, o que tem pressionado as empresas a revisar critérios de contratação e promoção. Ainda assim, o próprio relatório reconhece que ampliar vagas é apenas parte do caminho: a distribuição da renda dentro dessas vagas continua desigual, e é justamente esse ponto que preocupa especialistas em equidade de gênero no mercado de trabalho.
Por que a diferença salarial não diminui apesar do avanço
Os dados sobre remuneração ajudam a entender o tamanho do problema. Em 2023, as mulheres recebiam, em média, 20,7% menos que os homens; no relatório mais recente, essa diferença subiu para 21,3%. No salário mediano de contratação, o quadro é parecido: a diferença passou de 13,7% para 14,3%, uma variação que o próprio ministério classifica como estatisticamente estável, mas que na prática representa nenhum avanço real na equiparação de rendimentos. O salário médio calculado pelo relatório é de R$ 4.594,89, enquanto o salário contratual mediano fica em R$ 2.295,36, valores que servem de referência para comparar a posição das mulheres dentro da escala salarial das empresas avaliadas.
Um dado chama atenção especial: mesmo representando 41,4% do total de pessoas empregadas nessas empresas, as mulheres ficam com apenas 35,2% da massa salarial distribuída, uma alta em relação aos 33,7% registrados anteriormente, mas ainda distante da proporcionalidade. Para que a participação das mulheres na renda alcançasse o mesmo patamar da presença delas no emprego, seria necessário um acréscimo estimado em R$ 95,5 bilhões nos rendimentos femininos, segundo cálculos que acompanham o relatório. Esse tipo de descompasso costuma ser explicado por fatores como a concentração de mulheres em cargos de entrada e a menor proporção delas em posições de liderança, ainda que a legislação de transparência salarial tenha ampliado a fiscalização sobre esse tipo de desigualdade dentro das empresas.
O que muda na prática para quem trabalha ou contrata
Para trabalhadoras que buscam entender se estão sendo remuneradas de forma justa, o relatório de transparência salarial passou a ser uma ferramenta de consulta pública, já que as empresas com 100 ou mais empregados são obrigadas a divulgar esses dados periodicamente. Isso significa que é possível comparar faixas salariais por cargo e por gênero dentro de uma mesma empresa, o que amplia o poder de negociação em processos seletivos e em pedidos de reajuste. Especialistas em direito trabalhista recomendam que trabalhadoras que suspeitem de discriminação salarial busquem o relatório da própria empresa, disponível nos canais oficiais do Ministério do Trabalho e Emprego, antes de formalizar qualquer reclamação ou denúncia.
Para empresas, o relatório funciona como um termômetro de risco reputacional e jurídico. Companhias que não conseguem justificar diferenças salariais entre homens e mulheres em cargos equivalentes ficam mais expostas a questionamentos judiciais e à aplicação da multa prevista em lei, que pode chegar a dez vezes o valor do salário da pessoa discriminada. Esse cenário tem levado departamentos de recursos humanos a revisar critérios de promoção e contratação com base em parâmetros mais objetivos, reduzindo o espaço para decisões subjetivas que historicamente prejudicavam trabalhadoras em processos de ascensão profissional.
O retrato que emerge do relatório é o de um mercado de trabalho em transformação, mas ainda incompleto. Mais mulheres empregadas é uma conquista importante, sobretudo entre mulheres negras e pardas, mas o hiato salarial mostra que a equidade de oportunidades não caminha automaticamente junto com a equidade de renda. A transparência criada pela legislação de 2023 dá visibilidade ao problema e cria mecanismos de cobrança, mas a redução efetiva da diferença salarial depende de decisões contínuas das empresas em revisar critérios de remuneração, e não apenas de divulgar números a cada seis meses.
Fontes consultadas: Ministério do Trabalho e Emprego: https://www.gov.br/trabalho-e-emprego/pt-br/noticias-e-conteudo/2026/abril/5o-relatorio-de-transparencia-salarial-aponta-crescimento-de-11-de-mulheres-no-mercado-de-trabalho Agência Brasil: https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2026-04/emprego-feminino-aumenta-11-mas-desigualdade-salarial-persiste
