Executivas e pesquisadoras debateram a falta de diversidade na criação de algoritmos durante o maior evento de tecnologia do Brasil
Quem programa os algoritmos que decidem o que aparece no seu feed, recomendam produtos ou influenciam até decisões de crédito? Essa pergunta, longe de ser apenas técnica, esteve no centro de boa parte dos debates do Web Summit Rio 2026, que reuniu executivas, pesquisadoras, investidoras e criadoras de conteúdo para discutir o papel das mulheres na construção da inteligência artificial. A presença feminina no evento foi além da discussão sobre uso de ferramentas de IA: o tema central girou em torno de quem efetivamente cria, treina e lidera os sistemas que já moldam decisões, comportamentos e relações de consumo em escala global. Para quem acompanha o avanço da tecnologia no Brasil, entender por que essa discussão ganhou tanto destaque ajuda a explicar os próximos passos do setor.
Por que a diversidade na criação de IA se tornou um tema central
Ao longo do evento, especialistas defenderam que equipes plurais contribuem diretamente para reduzir vieses, ampliar perspectivas e desenvolver soluções mais alinhadas à diversidade da sociedade brasileira. A preocupação não é apenas simbólica: quando algoritmos são criados majoritariamente por um grupo homogêneo de pessoas, eles tendem a reproduzir os mesmos pontos de vista e as mesmas lacunas de percepção, o que pode afetar diretamente a forma como sistemas de inteligência artificial tomam decisões automatizadas. Em um setor historicamente dominado por homens, a presença feminina nos palcos do Web Summit Rio deixou de ser apenas uma pauta de representatividade e passou a integrar diretamente o debate sobre criatividade, negócios e desenvolvimento tecnológico.
A Country Manager da Adobe no Brasil, Mari Pinudo, exemplificou bem essa transformação ao explicar como os grandes modelos de linguagem alteraram a relação entre marcas e consumidores. Segundo ela, campanhas publicitárias deixaram de ser eventos pontuais e se tornaram uma conversa contínua, o que exige das empresas uma capacidade muito maior de compreender, em tempo real, os sinais gerados por essa interação constante com o público. Para Mari, a tecnologia amplia capacidades, mas não substitui a sensibilidade humana necessária para interpretar contextos e construir narrativas relevantes, ponto reforçado por diversas outras participantes do evento.
O que os números revelam sobre as mulheres na inovação brasileira
Os dados apresentados durante o Web Summit Rio 2026 ajudam a contextualizar o debate. Segundo o Observatório de Startups do Sebrae, as mulheres estavam à frente de 31% das startups brasileiras em 2025, número expressivo, mas que ainda revela distância em relação à paridade. Entre as mil empresas selecionadas para o Prêmio Sebrae Startups 2025, 44% contavam com mulheres entre as fundadoras, percentual que mostra avanço gradual em um ambiente predominantemente masculino. Apesar desses números, desafios relacionados ao acesso a investimentos e à ocupação de cargos de liderança continuam sendo apontados por especialistas como barreiras importantes para a equidade no setor de tecnologia.
A influenciadora e empresária Juliette Freire, uma das participantes do evento, chamou atenção para a responsabilidade crescente de quem produz conteúdo em um cenário cada vez mais influenciado por algoritmos e inteligência artificial. Segundo ela, essa responsabilidade nunca foi tão grande, considerando a velocidade com que a informação circula e a capacidade da IA de amplificar tanto conteúdos relevantes quanto desinformação. A atriz Deborah Secco também participou dos debates, reforçando como mulheres de diferentes setores, da tecnologia ao entretenimento, vêm contribuindo para ampliar a conversa sobre o impacto da inteligência artificial na sociedade brasileira.
Os próximos passos para ampliar a presença feminina na tecnologia
O debate sobre representatividade feminina na inteligência artificial não se limita ao Brasil. Em abril, durante o Dia Internacional das Meninas nas TIC 2026, a Forbes Brasil destacou nomes femininos que já lideram empresas estratégicas no setor global de IA, incluindo executivas à frente de laboratórios de pesquisa e startups avaliadas em centenas de milhões de dólares. A mensagem por trás dessas iniciativas é clara: a presença de mulheres na criação de tecnologia deixou de ser uma questão apenas simbólica e passou a ser tratada como estratégica para o desenvolvimento de sistemas mais representativos da diversidade real da sociedade.
No Brasil, eventos como o Tech Woman e o AI Summit Brasil também têm reforçado o compromisso com a ampliação da presença feminina no setor, criando espaços de formação voltados tanto para quem deseja ingressar na área quanto para quem já atua nela. A expectativa de especialistas é que esse movimento se traduza em mudanças estruturais na forma como empresas de tecnologia contratam, promovem e desenvolvem talentos femininos nos próximos anos, ampliando o acesso à formação técnica e à liderança em projetos estratégicos de inteligência artificial.
O Web Summit Rio 2026 deixou um recado direto para o setor de tecnologia brasileiro: discutir inteligência artificial sem discutir quem a constrói é discutir apenas metade do problema. A presença de executivas, pesquisadoras e criadoras de conteúdo nos principais palcos do evento mostrou que o tema da diversidade já não pode ser tratado como pauta secundária diante do avanço acelerado da IA. Os números do Sebrae confirmam que o caminho está sendo percorrido, ainda que de forma gradual, enquanto vozes como as de Mari Pinudo e Juliette Freire ajudam a manter o assunto em evidência ao longo de 2026.
Fontes consultadas: https://adnews.com.br/post/o-olhar-feminino-sobre-a-inteligencia-artificial | https://www.flane.com.pa/blog/pt/mulheres-na-inteligencia-artificial-futuro-da-ia/
Autor: Diego Rodríguez Velázquez
