Iniciativas recentes de capacitação mostram como a IA pode ampliar oportunidades profissionais, enquanto desigualdades de acesso continuam sendo um obstáculo.
A inteligência artificial deixou de ser uma tecnologia restrita aos departamentos de tecnologia e passou a fazer parte de tarefas profissionais, estudos, serviços e atividades cotidianas. No Brasil, esse avanço começa a produzir uma discussão cada vez mais importante para as mulheres: como transformar a popularização da IA em oportunidade de carreira sem ampliar desigualdades já existentes? Nos últimos dias, iniciativas de capacitação e eventos voltados à participação feminina na tecnologia colocaram esse debate novamente em evidência. Uma delas foi uma ação de formação em inteligência artificial destinada a mulheres do setor de telecomunicações, enquanto outras iniciativas nacionais procuram aumentar a presença feminina em áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática. (Correio Braziliense)
A questão interessa mesmo a quem não trabalha diretamente com tecnologia. A IA já influencia recrutamento, atendimento, produção de conteúdo, educação, administração e diversas profissões, o que significa que aprender a utilizá-la pode se tornar uma habilidade profissional relevante. Ao mesmo tempo, o acesso à internet já alcança 95% dos domicílios brasileiros, segundo o IBGE, mas acesso à conexão não significa necessariamente domínio das novas ferramentas digitais.
Por que a inteligência artificial pode criar novas oportunidades profissionais para mulheres
A expansão da inteligência artificial está modificando a maneira como empresas organizam tarefas e procuram profissionais. Uma pessoa que domina ferramentas de IA pode utilizá-las para organizar informações, automatizar atividades repetitivas, analisar documentos, criar protótipos, produzir materiais ou acelerar determinadas etapas de um trabalho. Isso não significa que a tecnologia substitua automaticamente profissionais, mas indica que a capacidade de trabalhar com sistemas digitais tende a ganhar importância em diferentes áreas, inclusive fora da programação tradicional.
O movimento recente de capacitação feminina mostra justamente essa mudança. Uma iniciativa da Abrint Mulher, por exemplo, passou a oferecer treinamento gratuito sobre inteligência artificial e suas aplicações práticas com o objetivo de fortalecer a participação feminina e a liderança no setor de telecomunicações. Ao mesmo tempo, programas voltados à presença de mulheres em STEM procuram combater uma diferença histórica na participação feminina em áreas consideradas estratégicas para a transformação digital. (Correio Braziliense)
Esse tipo de formação pode ser relevante porque a tecnologia não precisa ser encarada apenas como uma profissão. Para uma jornalista, por exemplo, IA pode auxiliar na organização de informações; para uma profissional de marketing, pode acelerar análises e testes; para uma empreendedora, pode ajudar em determinadas tarefas administrativas; e para uma estudante, pode funcionar como ferramenta complementar de aprendizagem. O ganho depende, entretanto, de saber avaliar resultados, conferir informações e compreender limitações, em vez de simplesmente aceitar tudo que uma ferramenta produz.
O próprio avanço da tecnologia dentro das empresas brasileiras reforça essa tendência. Dados da PINTEC 2024 divulgados pelo IBGE mostram que 41,9% das empresas industriais brasileiras com 100 ou mais pessoas ocupadas utilizavam inteligência artificial em 2024, ante 16,9% em 2022. (Educa IBGE) Esse crescimento indica que conhecimentos relacionados à IA podem deixar de ser diferenciais exclusivos de especialistas e passar a fazer parte da rotina de um número maior de trabalhadores.
O acesso à internet garante que as mulheres estejam preparadas para a era da IA?
A resposta é não. O aumento da conectividade brasileira é um avanço importante, mas existe uma diferença entre estar conectado e ter condições de utilizar tecnologias avançadas de maneira produtiva, segura e crítica. O IBGE informou que a internet estava presente em 95% dos domicílios do país em 2025, enquanto mais de 90% da população de 10 anos ou mais havia utilizado a rede. Esses números mostram uma ampla disseminação da conectividade, mas não eliminam diferenças de renda, escolaridade, infraestrutura e formação digital.
Para as mulheres, a questão ganha outra dimensão quando tecnologia e mercado de trabalho são analisados conjuntamente. Entrar em uma área tecnológica pode exigir cursos, equipamentos, tempo disponível para estudar e oportunidades de experiência profissional, fatores que não estão distribuídos igualmente entre todas as brasileiras. Por isso, programas de capacitação direcionados ao público feminino podem funcionar como uma ponte entre o acesso básico à internet e a utilização profissional de ferramentas mais sofisticadas.
Há também um desafio relacionado ao próprio desenvolvimento dos sistemas de inteligência artificial. Modelos são treinados a partir de grandes volumes de dados e podem reproduzir padrões presentes nesses dados quando não são adequadamente avaliados. Um exemplo frequentemente discutido na literatura sobre tecnologia é o risco de sistemas utilizados em recrutamento reproduzirem desigualdades históricas presentes nos dados usados para treinamento, o que torna diversidade nas equipes de desenvolvimento e avaliação um tema relevante para a tecnologia.
Nesse cenário, ampliar a presença feminina em tecnologia não significa apenas aumentar o número de mulheres empregadas no setor. Também significa permitir que diferentes experiências estejam presentes na criação de produtos, algoritmos e serviços que serão utilizados por toda a sociedade. A iniciativa Residência em TIC 09, descrita em levantamento do CNPq e do MCTI, é um exemplo de programa de formação em inteligência artificial que já havia beneficiado 523 mulheres, enquanto outros projetos reservam vagas para ampliar a participação feminina em capacitações avançadas de computação. (Serviços e Informações do Brasil)
Como a mulher pode se preparar para um mercado de trabalho cada vez mais influenciado pela IA
A principal mudança não é necessariamente aprender programação, mas desenvolver uma combinação de competências digitais, pensamento crítico e conhecimento profissional. Uma mulher que já possui experiência em determinada área pode começar entendendo como a inteligência artificial pode ser utilizada naquele segmento, quais tarefas podem ser automatizadas e quais atividades continuam dependendo fortemente de julgamento humano. Essa abordagem tende a ser mais útil do que tentar aprender todas as ferramentas disponíveis ao mesmo tempo.
Também é importante compreender que ferramentas de IA podem produzir respostas incorretas, informações desatualizadas ou conteúdos aparentemente convincentes que precisam ser verificados. Em atividades profissionais, isso significa que revisão, checagem de fontes, proteção de dados e responsabilidade sobre o resultado continuam sendo fundamentais. A tecnologia pode acelerar uma tarefa, mas não elimina automaticamente a necessidade de conhecimento especializado.
Para estudantes e profissionais em transição de carreira, cursos gratuitos ou subsidiados podem representar uma porta de entrada. As iniciativas que vêm sendo anunciadas no Brasil indicam que formação em IA, computação e telecomunicações está recebendo atenção crescente, especialmente quando associada à inclusão de mulheres. A reportagem da Folha de S.Paulo sobre programas recentes de capacitação também mostra que existem oportunidades específicas em STEM destinadas a ampliar a participação feminina. (Folha de S.Paulo)
O movimento, portanto, deve ser acompanhado não apenas como uma tendência tecnológica, mas como uma transformação do mercado de trabalho. A popularização da IA pode criar novas funções e aumentar a produtividade em várias profissões, mas os benefícios não serão distribuídos automaticamente. Nos próximos anos, a capacidade de oferecer formação acessível, ampliar a participação feminina e ensinar uso responsável das ferramentas será decisiva para evitar que a revolução digital aumente desigualdades. Para as leitoras, o cenário aponta uma oportunidade concreta: tecnologia pode ser aprendida gradualmente e aplicada à profissão já existente, tornando a adaptação à era da inteligência artificial menos distante e mais prática.
