Escala 6×1: pesquisa revela impacto na saúde mental e no descanso dos brasileiros

Adele Delvern
Por Adele Delvern
8 Min de leitura
Escala 6x1: pesquisa revela impacto na saúde mental e no descanso dos brasileiros

Levantamento mostra como seis dias consecutivos de trabalho podem afetar sono, hábitos saudáveis, relações familiares e qualidade de vida.

A discussão sobre o fim da escala 6×1 ganhou uma nova dimensão nesta semana: além do debate trabalhista e econômico, uma pesquisa colocou a saúde e a qualidade de vida no centro da questão. Segundo levantamento do Instituto Locomotiva em parceria com a QuestionPro, 67% dos brasileiros entrevistados consideram que trabalhar seis dias consecutivos e descansar apenas um prejudica a saúde mental. O levantamento também aponta efeitos sobre a saúde física, o sono, a convivência familiar e a capacidade de manter hábitos considerados saudáveis. Os dados foram divulgados em 2 de setembro, mesmo dia em que a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado aprovou a PEC 221/2019, que prevê dois dias de repouso semanal e redução gradual da jornada máxima de 44 para 40 horas. A dúvida que interessa ao leitor é maior do que saber se a proposta será aprovada: o que uma rotina de trabalho com pouco tempo de recuperação pode fazer com o organismo e com a saúde emocional?

O que a escala 6×1 revela sobre saúde mental e qualidade de vida

O levantamento ouviu 1.030 brasileiros de todas as regiões do país entre 2 e 8 de junho. Para 67% dos participantes, a escala 6×1 prejudica a saúde mental, enquanto 62% afirmaram perceber prejuízos para a saúde física. Outros números ajudam a dimensionar o impacto cotidiano: 69% disseram que o modelo reduz o tempo disponível para a família, 61% apontaram consequências sobre sono e descanso e 71% afirmaram que a jornada dificulta a manutenção de hábitos saudáveis. Além disso, 78% consideraram difícil descansar de verdade trabalhando nesse ritmo, enquanto 83% relataram a sensação de estar cada vez mais cansados. Entre os trabalhadores submetidos a esse modelo, 85% afirmaram que precisam sacrificar saúde e lazer em função da renda, percentual que chega a 89% entre as mulheres. Os resultados não significam que toda pessoa submetida à escala desenvolverá um transtorno mental ou uma doença física, mas mostram uma percepção expressiva de desgaste associada à organização da jornada.

A ciência também oferece elementos para compreender por que descanso insuficiente merece atenção. Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em Sleep Medicine Reviews avaliou 48 estudos sobre trabalhadores que passaram a atuar em turnos e identificou piora de indicadores de sono e saúde mental após o início do trabalho em turnos. Embora escala 6×1 e trabalho em turnos não sejam conceitos equivalentes, os resultados ajudam a demonstrar que alterações na organização do trabalho podem interferir nos processos de recuperação física e psicológica. Outro estudo conjunto da Organização Mundial da Saúde (OMS) e da Organização Internacional do Trabalho (OIT), baseado em centenas de milhares de participantes, encontrou associação entre jornadas de pelo menos 55 horas semanais e maior risco de doença cardíaca isquêmica e acidente vascular cerebral. Portanto, a questão não deve ser tratada apenas como preferência pessoal: sono, recuperação e tempo fora do trabalho fazem parte dos fatores que influenciam a saúde ao longo do tempo.

Por que dormir e ter tempo livre são importantes para o organismo

O sono não representa simplesmente um intervalo em que a pessoa deixa de trabalhar. Ele participa de processos fundamentais relacionados à recuperação física, funcionamento cognitivo, regulação emocional e manutenção da atenção. Quando a rotina profissional reduz repetidamente o período disponível para dormir ou transforma a folga em um momento dedicado exclusivamente a tarefas domésticas e obrigações acumuladas, o trabalhador pode ter dificuldade para alcançar uma recuperação adequada. É justamente nesse ponto que o resultado da pesquisa chama atenção: 61% dos entrevistados identificaram prejuízos no sono e descanso, enquanto 78% disseram que têm dificuldade de descansar de verdade. Para quem precisa acordar cedo no dia seguinte, uma única folga pode acabar sendo consumida por deslocamentos, compras, limpeza da casa, cuidados com filhos e outras responsabilidades.

O problema também pode aparecer na manutenção de comportamentos protetores da saúde. Exercício físico, alimentação organizada, consultas médicas preventivas, convivência social e atividades de lazer exigem tempo e energia, recursos que podem ficar reduzidos quando o trabalho ocupa grande parte da semana. A pesquisa mostra que 44% dos participantes identificaram impacto sobre exercícios físicos e 40% sobre alimentação, além de 55% apontarem prejuízos para lazer e hobbies. Para profissionais de saúde, esses dados reforçam a importância de olhar para o paciente de maneira integral, considerando rotina profissional, sono, estresse e possibilidades concretas de autocuidado. Isso não significa atribuir automaticamente sintomas a uma escala de trabalho, mas reconhecer que fatores ocupacionais podem fazer parte da avaliação de saúde quando existe sofrimento persistente ou queda importante da qualidade de vida.

O que pode mudar com o avanço da proposta no Senado

A discussão ganhou força porque a CCJ do Senado aprovou, em 2 de setembro, o texto da PEC 221/2019. A proposta prevê dois dias de repouso semanal remunerado, preferencialmente um deles aos domingos, e redução da jornada máxima de 44 para 40 horas semanais, sem redução salarial. O texto segue agora para análise do Plenário do Senado, portanto a aprovação na comissão não significa que a mudança já esteja valendo para os trabalhadores. A eventual alteração ainda dependerá da tramitação constitucional e das votações necessárias.

Do ponto de vista da saúde, a principal questão será entender como uma eventual mudança na jornada será implementada em diferentes setores. Uma redução de horas não produz automaticamente melhora de saúde se vier acompanhada de intensificação do ritmo, aumento de pressão, jornadas fragmentadas ou dificuldade de desconectar-se do trabalho. Por outro lado, mais tempo de recuperação pode abrir espaço para sono adequado, atividade física, alimentação, convivência familiar e acompanhamento preventivo. A evidência da OMS e da OIT sobre jornadas muito longas reforça que limites de tempo de trabalho são relevantes para a saúde ocupacional, mas não permite afirmar que uma mudança específica na legislação brasileira eliminará riscos ou garantirá determinado resultado clínico.

Para o leitor, a pesquisa traz uma mensagem que vai além da disputa sobre a escala 6×1: tempo de descanso também é um componente da qualidade de vida. O dado de que 83% dos entrevistados relatam sentir-se cada vez mais cansados mostra a dimensão subjetiva do problema, enquanto os estudos científicos ajudam a explicar por que sono insuficiente e jornadas extensas merecem atenção. Se uma pessoa apresenta cansaço persistente, alterações importantes do sono, sofrimento emocional ou outros sintomas que interferem na rotina, é importante procurar avaliação de um profissional de saúde em vez de atribuir tudo automaticamente ao trabalho. A discussão sobre jornada pode mudar no Congresso, mas os cuidados básicos com descanso, saúde física e saúde mental continuam relevantes independentemente do modelo de contratação.

Compartilhe esse artigo