Eleições 2026: o que os planos de governo dos presidenciáveis prometem para as mulheres brasileiras

Adele Delvern
Por Adele Delvern
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Eleições 2026: o que os planos de governo dos presidenciáveis prometem para as mulheres brasileiras

Estudo mostra que violência, saúde e cuidado aparecem com força, mas participação política e autonomia ainda recebem menos espaço.

As eleições de 2026 começam a colocar no centro uma pergunta que vai além de quem vencerá a disputa presidencial: o que os candidatos pretendem fazer para melhorar a vida das mulheres brasileiras? Um levantamento do Instituto Update, divulgado nesta semana, analisou 12 candidaturas à Presidência e encontrou propostas voltadas às mulheres em diferentes campos políticos, mas com concentração em temas como violência, saúde e políticas de cuidado. A pesquisa também identificou uma lacuna entre o que aparece nos programas e algumas das principais demandas apontadas pelas próprias brasileiras, especialmente quando o assunto é participação feminina nos espaços de poder, segurança no cotidiano e autonomia econômica. Para a eleitora, isso significa que não basta encontrar a palavra “mulher” em um plano de governo. É preciso entender qual problema a proposta pretende resolver, quem será beneficiado, como a medida seria implementada e quais resultados podem ser cobrados durante o mandato.

O que os planos de governo estão propondo para as mulheres

O levantamento do Instituto Update mostra que a violência contra as mulheres é a pauta mais disseminada entre os programas analisados. Nove das 12 candidaturas, o equivalente a 75%, apresentam propostas explícitas relacionadas à violência contra mulheres, feminicídio ou proteção de vítimas. As medidas variam entre ampliação de redes de proteção e casas-abrigo, integração entre segurança, Justiça, saúde e assistência social, monitoramento eletrônico de agressores, medidas protetivas e mudanças na legislação penal. A presença do tema é relevante porque a violência doméstica e o feminicídio exigem respostas articuladas, e não apenas ações isoladas de segurança pública. Para a eleitora, portanto, uma das questões mais importantes será verificar se cada promessa apresenta mecanismos concretos de prevenção, atendimento, proteção e responsabilização.

Outro eixo importante é o cuidado, que aparece associado à rotina familiar, à maternidade, ao trabalho e à autonomia econômica. Sete dos 12 planos, ou 58%, relacionam explicitamente creches ou políticas de cuidado à vida econômica e social das mulheres. Em algumas propostas, o cuidado aparece como infraestrutura pública capaz de liberar tempo para que mulheres estudem, trabalhem e participem da vida econômica; em outras, está mais ligado à proteção da família e às responsabilidades domésticas. Essa diferença pode parecer apenas discursiva, mas produz consequências práticas: uma política baseada na ampliação de serviços públicos de cuidado tem lógica diferente de uma política que concentra a responsabilidade dentro das famílias. O ponto central para quem vota é perceber se a promessa cria condições permanentes para reduzir a sobrecarga ou apenas oferece medidas pontuais.

Por que participação política e autonomia também entram na conta

A pesquisa chama atenção para um contraste: as mulheres aparecem frequentemente como destinatárias das políticas públicas, mas menos como participantes das estruturas de decisão. Segundo o estudo, apenas uma candidatura apresentou uma proposta específica relacionada à participação político-eleitoral feminina, incluindo combate à violência política de gênero, formação de candidatas e lideranças e regras relacionadas ao financiamento partidário. Quando o critério é ampliado para liderança e espaços de decisão, uma segunda candidatura passa a contemplar o tema, com medidas de incentivo à liderança feminina e compromisso relacionado à presença de mulheres em vagas disponíveis no Supremo Tribunal Federal.

A lacuna ganha importância quando comparada às pesquisas sobre o que as próprias brasileiras pensam. O estudo “Mulheres em Diálogo”, realizado pelo Instituto Update com o Instituto de Pesquisa IDEIA, ouviu 668 mulheres de diferentes regiões, faixas etárias, classes sociais e posições político-ideológicas. Na pesquisa, 85% das entrevistadas apoiaram o aumento da presença feminina na política brasileira, enquanto 94% concordaram que homens e mulheres devem receber a mesma remuneração quando exercem funções equivalentes, segundo os dados divulgados pelo Instituto Update. Isso sugere que a agenda eleitoral pode ser analisada também pela capacidade de transformar mulheres de simples beneficiárias de políticas em participantes efetivas das decisões que definem essas políticas.

Como a eleitora pode avaliar uma promessa de campanha

Um dos cuidados mais importantes durante o período eleitoral é diferenciar tema, promessa e política pública estruturada. O Instituto Update ressalta que alguns programas fazem referências relevantes às mulheres, mas apresentam pouco detalhamento sobre implementação, metas, instrumentos ou articulação com políticas que já existem. Para o eleitor, essa distinção é fundamental: dizer que haverá combate à violência, incentivo à autonomia ou ampliação do cuidado não explica, sozinho, quanto será investido, qual órgão será responsável, qual público terá prioridade ou como os resultados serão medidos. Quanto mais concreta for uma proposta, maior a possibilidade de acompanhar sua execução posteriormente.

A segurança cotidiana é um bom exemplo de como uma promessa pode precisar ser analisada além do título. A pesquisa “Mulheres, Polícia e Facções”, realizada pelo Instituto Update em parceria com o Instituto Fogo Cruzado, apontou que 79% das mulheres sentem medo ao sair à noite, 59% já deixaram de frequentar determinados lugares por receio da violência e 31,4% deixaram de utilizar algum meio de transporte pelo mesmo motivo. Apesar disso, o estudo sobre os planos presidenciais encontrou pouca presença explícita da experiência feminina nos espaços públicos, na mobilidade e no transporte. Para a eleitora, a pergunta passa a ser mais específica: uma política de segurança melhora apenas os indicadores criminais ou também considera como mulheres circulam, trabalham, estudam, usam o transporte público e ocupam a cidade?

A autonomia econômica também merece atenção porque pode aparecer com significados bastante diferentes entre as candidaturas. Em alguns programas, ela é associada a emprego, renda, direitos, creches e proteção social; em outros, ganha destaque por meio de crédito, empreendedorismo, educação financeira e formação de patrimônio. Nenhuma dessas abordagens deve ser analisada apenas pela linguagem utilizada na campanha: a questão é identificar quais instrumentos seriam usados e quais barreiras concretas pretendem enfrentar. Para uma mulher que concilia trabalho remunerado, tarefas domésticas, maternidade ou cuidado de familiares, por exemplo, uma política de crédito pode ter impacto diferente de uma política de creches ou ampliação de serviços públicos.

O estudo divulgado nesta semana ajuda a colocar uma questão importante nas eleições de 2026: não basta perguntar se um candidato tem propostas para mulheres; é preciso descobrir que visão de mulher e de sociedade está por trás dessas propostas. Violência, saúde e cuidado são temas fundamentais, mas participação política, segurança no espaço público, trabalho, renda e autonomia também influenciam diretamente a vida cotidiana. Como os programas ainda estão sujeitos ao debate eleitoral, a eleitora pode acompanhar versões atualizadas, comparar metas e observar quais compromissos apresentam mecanismos de execução e fiscalização. A escolha do voto continua sendo individual, mas informação qualificada permite transformar promessas genéricas em perguntas concretas sobre o futuro do país.

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