Como o ciclo da violência doméstica se mantém e por que romper com ele exige mais do que coragem?

Diego Rodríguez Velázquez
Por Diego Rodríguez Velázquez
7 Min de leitura
Taiza Tosatt Eleoterio

Violência doméstica raramente se apresenta desde o início como o que é. Ela começa com pequenos controles, comentários que diminuem, ciúmes apresentados como prova de amor. Com o tempo, esses comportamentos se intensificam e se organizam em um padrão que a psicanálise há décadas estuda e nomeia como ciclo da violência. Compreender como esse ciclo funciona é fundamental para quem quer entender por que ele é tão difícil de romper e o que realmente ajuda quem está dentro dele. É sobre essa dinâmica que a psicanalista Taiza Tosatt Eleoterio se debruça em sua atuação com mulheres e famílias em situação de vulnerabilidade.

O ciclo não é linear nem previsível. Ele se repete com variações de intensidade e frequência que tornam ainda mais difícil para a mulher identificar onde está e o que está vivendo. A cada repetição, a percepção de normalidade se desloca. O que antes parecia inaceitável passa a ser tolerado. O que antes causava alarme deixa de ser percebido como sinal de perigo.

Entender esse mecanismo não é apenas uma questão clínica. É uma questão de saúde pública, de política e de como a sociedade lida com um problema que atravessa classes, regiões e gerações.

Como o ciclo da violência doméstica se estrutura na prática?

O ciclo da violência doméstica foi descrito pela pesquisadora Lenore Walker na década de 1970 e segue sendo uma das referências mais utilizadas para compreender a dinâmica do abuso em relacionamentos íntimos. Ele se organiza em fases que se alternam de forma cíclica: a tensão que se acumula, o episódio de violência, a reconciliação marcada por arrependimento e promessas, e o período de relativa calmaria que antecede a próxima fase de tensão.

Cada fase cumpre uma função dentro da dinâmica abusiva. A fase de reconciliação, em particular, é especialmente poderosa porque reativa o vínculo afetivo e reacende a esperança de que o comportamento do agressor pode mudar. Essa esperança, renovada repetidamente, é um dos principais elementos que mantêm a mulher dentro do ciclo por meses ou anos.

Por que o ciclo é tão difícil de identificar de dentro?

Quem observa uma situação de violência doméstica de fora tende a enxergar o padrão com mais clareza do que quem está dentro. Isso não acontece por falta de inteligência ou de percepção. Acontece porque o ciclo se instala de forma gradual e porque a própria dinâmica abusiva distorce a capacidade da mulher de avaliar o que está vivendo.

O isolamento social promovido pelo agressor reduz o acesso a perspectivas externas que poderiam funcionar como referência. A erosão da autoestima, construída ao longo do tempo por meio de críticas, humilhações e desqualificações, compromete a confiança da mulher em seu próprio julgamento. Diante desse quadro, Taiza Tosatt Eleoterio ressalta que culpar a mulher por não ter saído antes é, além de injusto, uma leitura que ignora completamente o que o abuso faz com a percepção de quem o vive.

O que mantém o ciclo em movimento além da violência em si?

A violência física é a face mais visível do abuso, mas raramente é a única. O controle financeiro, o isolamento de amigos e familiares, a vigilância constante, a manipulação emocional e o uso dos filhos como instrumento de pressão são formas de abuso que sustentam o ciclo mesmo nos períodos em que a violência física está ausente.

Esses mecanismos criam uma dependência que vai muito além do afeto. Uma mulher que não tem acesso ao próprio dinheiro, que foi afastada de sua rede de apoio e que teme as consequências de uma saída mal planejada está presa por razões concretas, não apenas emocionais. A especialista em saúde mental e relações familiares, Taiza Tosatt Eleoterio, observa que qualquer intervenção que ignore essas dimensões práticas tende a ser insuficiente, por mais bem-intencionada que seja.

O que romper com o ciclo realmente exige?

Sair de um relacionamento abusivo exige coragem, sem dúvida. Mas exige também acesso a recursos concretos, suporte emocional consistente e tempo para que a mulher reconstrua internamente o que o abuso destruiu. A ruptura definitiva raramente acontece na primeira tentativa. Estudos sobre o tema indicam que mulheres em situação de abuso tentam sair, em média, várias vezes antes de conseguir se afastar definitivamente do agressor.

Cada tentativa, mesmo que seguida de retorno, é parte do processo. Tratá-las como falhas é desconhecer como o ciclo funciona e o que ele exige de quem está tentando sair. O suporte que faz diferença é aquele que permanece presente, independentemente do número de tentativas, sem julgamento e sem prazo.

O que vem depois de romper o ciclo?

Sair do relacionamento é um passo fundamental, mas não é o fim do processo. O ciclo da violência deixa marcas que persistem após a saída: dificuldade de confiar, hipervigilância, sensação constante de perigo mesmo em ambientes seguros, e padrões relacionais que precisam ser compreendidos para não se repetirem. É nesse momento que o acompanhamento psicanalítico encontra um de seus papéis mais importantes.

Para Taiza Tosatt Eleoterio, o trabalho que começa depois da saída é tão necessário quanto o suporte oferecido durante o processo de ruptura. Compreender o que aconteceu, elaborar o que foi vivido e reconstruir uma relação com o próprio desejo e com a própria capacidade de escolha são etapas que não se cumprem sozinhas. Elas precisam de tempo, de escuta qualificada e de um espaço onde a mulher possa, finalmente, ser mais do que o que o abuso fez dela.

Autor: Diego Rodríguez Velázquez

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